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domingo, 2 de agosto de 2009

A Viagem

Não vamos fazer planos, vamos apenas viajar
neste barco que nos recolheu
e cujo rumo não sabemos...


Não vamos fazer planos, vamos olhar as gaivotas,
os crepúsculos sobre o mar,
as ondas, as nuvens, os portos que amanhecerão,
agradecer ao destino que nos fez passageiros
do mesmo sonho.


Não vamos fazer planos, não vamos matar as nossas alegrias
modificando roteiros, se não sou o comandante do navio,
se ninguém é,
não vamos matar as nossas alegrias
com itinerários antecipados
como se fossemos turistas ricos
apenas gastando o seu tédio...


Não vamos fazer planos, vamos nos deixar levar
ao sabor das correntes,
vamos agradecer essa viagem como se fosse a primeira
como se fosse a última,
como se fosse aquela viagem há tanto tempo esperada,
que inacreditavelmente se tornasse
realidade...
E o porto onde chegarmos, - qualquer que seja o porto
ou o horizonte de mar que sempre se afastará,
serão o porto e o horizonte
da felicidade!

J.G de Araújo Jorge

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Dalton Trevisan - dito o poeta maldito, na Curitiba da Boca Maldita.

"A estátua do Marechal de Ferro madrugará com os olhos na nuca...Os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados...No rio Belém serão tantos os afogados que a cabeça de um encostará nos pés de outro...Dá uivos ó rua 15, berra, ó Ponte Preta, uma espiga de milho debulhada é Curitiba: sabugo estéril....Ó Curitiba Curitiba Curitiba, escuta o grito do Senhor feito um martelo que encerra os pregos. Teu próprio nome será um provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna.Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais (...) municie de Colombo, a besta baterá vôo no degrau de tuas portas."

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Traduzir-me - Ferreira Gullar

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
mundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

domingo, 21 de setembro de 2008

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca

Muito a ver com a minha alma
O meu mundo não é como o dos outros,
quero demais, exijo demais,
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem
eu mesma compreendo,
pois estou longe de ser umapessimista;
sou antes uma exaltada, com uma alma intensa,
violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade...sei lá de quê!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Amo-te tanto meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

domingo, 27 de julho de 2008

Bertold Brecht

Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento
Mas ninguém diz
violentas, as margens
que o comprimem

segunda-feira, 7 de julho de 2008

+Quintana

na solidão na penumbra do amanhecer.

Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,

nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

Via você no ontem, no hoje, no amanhã...

Mas não via você no momento.

Que saudade...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

apesar de ...

"E uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive, muitas vezes,
é o próprio "apesar de"
que nos empurra para a frente.
Foi o "apesar de" que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.

Clarice Lispector

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Ponto de vista

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.

Leila Miccolis

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

mario quintana

a cada ano
nos exigem sorrisos
e votos de felicidades
como se a felicidade existisse
em meio às guerras
fome & crimes & desertos
políticos & assaltos & tsunamis
a felicidade teima
mas os homens insistem
em desconhecê-la
a felicidade não deveria ser
apenas um desejo de ano novo
mas o pão nosso de cada manhã

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Drumond

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Gabriel Garcia Márquez



É PRECISO REVIVER O SONHO

E A CERTEZA DE QUE TUDO VAI MUDAR.

É NECESSÁRIO ABRIR OS OLHOS

E PERCEBER QUE AS COISAS BOAS

ESTÃO DENTRO DE NÓS, ONDE OS

SENTIMENTOS NÃO PRECISAM DE MOTIVOS,

NEM OS DESEJOS DE RAZÃO.

O IMPORTANTE É APROVEITAR

O MOMENTO E APRENDER SUA DURAÇÃO,

POIS A VIDA ESTÁ NOS OLHOS DE QUEM SABE VER.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Cecilia Meirelles

Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Átila Guimarães - Sempre

.
Venha comigo,
Minha sombra
Meu demônio
Minha sombra e meu demônio
.
E não me tema.
.
Porque eu colocarei minhas mãos em sua nuca
E a trarei para mim.
.
A reterei aí
.
Aqui
.
E, repito
Não me temas
Eu suplico
.
Eu garanto
.
A reterei aí
Aqui
.
Até o fim,
Quieto e calmo como um lago
.
Ou um cataclisma
De chamas
.
Até o fim.
.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Mario Gomes.

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.

Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

domingo, 25 de novembro de 2007

Manuel Bandeira

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres!
_
Hoje ela me chama,
que findem logo
todos os milagres.

Estou cansada !

sábado, 24 de novembro de 2007

Fernando Pessoa


















Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Leminski

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor
só doer
não é dor
delícia de
experimentador

___________

vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros
vãs todas as coisas que vão

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Le & Ru

coração
PRA CIMA
escrito em baixo
FRÁGIL
Paulo Leminski

______

Eu quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro ou está por fora
quem está por fora
não segura um olhar
que demora de dentro
de meu centro
este poema me olha

Paulo Leminski
________

Acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
Paulo Leminski

__________

não discuto com o destino
o que pintar eu assino
Paulo Leminski

_________

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome
Alice Ruiz
_____

Quem ri quando goza

é poesia
até quando é prosa
Alice Ruiz
_____

De tanto não poder dizer,
Meus olhos deram de falar.
Só falta você ouvir."
Alice Ruiz